OPINIÃO

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AS DEUSAS CELTAS DA EUROPA CONTINENTAL


Plenilúnio.

A lua surge de trás da torre medieval da igreja e ilumina meu quarto.
Sobre meu altar, a imagem da Vênus de Willendorf me hipnotiza e fascina.
Como se fosse a primeira vez desde que conheci a Arte. Como se eu fosse o
primeiro ser humano a tentar entendê-la.
Há mais de 23.000 anos, em vários pontos da Europa central nossos ancestrais da Idade da Pedra esculpiam com habilidade estatuetas de mulheres nuas, com ventre e seios fartos, símbolos inegáveis de fertilidade.
Descobertas na era atual, receberam a denominação de "vênus" (devido à beleza e singularidade de cada uma delas) mais o nome da localidade onde foram encontradas; sendo as mais famosas a Vênus de Willendorf e a Vênus de
Lespugue.
Milênios mais tarde, o encanto pelo mistério feminino persistia. Os povos celtas que surgiram na Europa durante a Idade do Ferro já não moravam em cavernas como os homens do Paleolítico. Mas identificavam no urso o poder, a beleza e a inteligência da deusa Artio, protetora da caça e também caçadora. Deusa-ursa da fertilidade e fartura, ela foi retratada em uma estatueta encontrada perto de Berne (Suíça) como uma dama sentada com uma cesta de frutas ao colo, oferecendo-as ao urso que lhe fareja o rosto.
A força, o poder da floresta e dos animais eram atributos freqüentes de divindades femininas gaulesas como Arduinna, a deusa-javali da floresta de Ardennes (atual França), protetora dos javalis e também dos caçadores; Cathubodua, a deusa-corvo da batalha; e Nemetona, a deusa do bosque sagrado, senhora das árvores cujas copas eram os templos dos druidas.
Epona, a deusa-eqüina, protetora dos cavalos, da fertilidade e da fartura, além de muito popular entre os celtas continentais, era adorada também pelos legionários romanos, que adotaram seu culto e o levaram para a Bretanha. Seu festival era celebrado em 18 de dezembro. Epona era constantemente retratada como uma dama ricamente vestida, cavalgando na companhia de um pássaro, um cachorro e um potro. Essa deusa também era associada às águas, pois em fontes termais, como em Allerey e Saulon-la-Chapelle, sua imagem era a de uma mulher nua com aparência de ninfa.
Às vezes, Epona aparece cavalgando um grande ganso com chifres; em Hogondange, no Vale do Moselle, foi encontrada uma tríplice Epona.
Na Gália, até mesmo divindades masculinas revelavam a atração dos celtas pelo triplismo (como o deus chamado pelos romanos de "Mercúrio gaulês", o qual possuía três faces, além de três falos). Deidades femininas da fertilidade e prosperidade eram representadas comumente em grupos de três, cada uma segurando uma cesta de frutas, pão, vinho ou um bebê. Esses conjuntos de "deae matres" ou "matronae" (deusas-mães ou matronas: Matres Comedovae, Matres Domesticae, Matres Griselicae, Matrona Aufaniae, Matrona Vacallinehae, entre outras) não são sempre compostos de figuras femininas iguais. Além dos objetos distintos que cada uma carrega, há diferenças sutis também em suas roupas, penteados e idades: como no conjunto encontrado na região do Reno (Alemanha), no qual estão duas senhoras usando grandes lenços de linho na cabeça e uma jovem de cabelos soltos. É o equilíbrio entre juventude, maternidade e velhice; florescência, sabedoria e aquisição; vida, morte e nascimento. De todos os aspectos do triplismo celta, o mais sublime se chama Mãe.
Mãe, mulher, rio. Fluidez, renovação, luz. Mãe, o bálsamo para nossos males físicos e espirituais, as águas curativas que foram transformadas em templos e santuários. Matrona, a deusa-rio que hoje conhecemos como Rio Marne. Sequana, o espírito do rio Sena, da fertilidade, da abundância e da cura, amada por camponeses e nobres, celtas e romanos. Sirona, a serpente, o vinho e o pão. Belisama, senhora do rio e do lago. Danu, Dana, Dôn, Anu, Ana, Áine... Deusa-rio, deusa-sol, deusa-fada...
Quantas faces tem a Grande Mãe? Para os celtas da Europa continental, muitas faces; as muitas águas de um rio: o Danúbio. Bem perto desse rio, milhares de anos antes, um artista da Idade da Pedra esculpiu uma imagem da Grande Mãe. Hoje nós a chamamos de Vênus de Willendorf. O nome é merecido: ela é realmente uma deusa da beleza.

Eliziane Paiva (Bandruir) estudou Comunicação Social (graduação)na Universidade Federal do Espírito Santo, Relações Internacionais e História do Brasil (pós-graduação/especialização)na Universidade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro. Atualmente, estuda História Moderna (pós-graduação/especialização) na Universidade Federal Fluminense, em Niterói. Participa do Movimento Inter-religioso (MIR)do Rio de Janeiro, onde representa o Druidismo. Nas horas vagas, dedica-se ao estudo de plantas e ao Programa de Voluntários da Floresta da Tijuca, no projeto Manejo de Flora. É fundadora e diretora da GERGÓVIA - Escola de Druidismo e Cultura Celta, e da Ordem Druídica DRUNEMETON, ambas no Rio de Janeiro.

Contatos:
bandruir@ig.com.br
www.gergovia.ubbi.com.br
gergovia@ubbi.com.br

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FÓRUM

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