APRENDENDO CON MITOS E LENDAS
Os Xamãs foram os
primeiros contadores de estórias, tecendo os mitos que ainda hoje nos emocionam. O melhor
modo de se ensinar ainda é através da parábola, um tipo especial de estória. O xamã
deve aprender o maior número possível de estórias, lendas, contos apócrifos e mitos.
Porém, a mais importante estória a ser aprendida é a sua própria. Não só você deve
aprendê-la, como também deve aprender a contá-la, para a mais exigente platéia que
existe: você mesmo.
Tudo possui as qualidades do mito. A vida é cheia de alusões míticas, as quais você,
como um xamã contador de estórias, deve aprender a cantar. Por esta razão, você deve
prosseguir em sua exploração pessoal das infinitas dimensões interiores do universo.
Sempre que um xamã ingressa no Outro Mundo, retorna com uma nova estória para contar.
As práticas religiosas convencionais, por mais válidas que sejam, costumem desapontar,
pois não atendem ao profundo desejo que os humanos nutrem por mitos. Como diz Alberto
Villoldo em seu livro The Four Winds, qualquer sacerdote não passa de um 'zelador de
mitos,' enquanto que o xamã penetra nas regiões mais profundas do Outro Mundo e retorna
com novos mitos em criação. Ele então os preserva, como os xamãs fazem desde tempos
imemoriais.
O grande mitógrafo Joseph Campbell disse, em mais de uma oportunidade, que ele cria que
uma mitologia para a nossa era não só era necessária, como estava em formação, apesar
de não saber precisar que forma ela teria. Creio que esta pode muito bem ser o mito
xamânico, e que, ao resgatar as lendas e os ensinamentos da tradição celta, estaremos
começando a construir nossa própria parte nesse mito. O xamanismo atende tão bem às
necessidades do mundo justamente por ter como base um conjunto comum de percepções, e
porque ele se relaciona de modo preciso com o mundo em que vivemos.
Se assim é, o que nós, Xamãs Celtas, podemos fazer para acrescentar nossas próprias
vozes a esta estória em evolução? Devemos aprender algumas das histórias maravilhosas
encontradas na ancestral literatura celta. As antigas lendas eram outrora narradas nos
salões dos reis celtas. Ao trabalhar com elas, você se aproximará dos espíritos do
povo celta, e de seus poetas-xamãs e contadores de estórias. Elas não são
inacessíveis, como alguns podem imaginar, e representam o melhor meio de se conectar à
tradição das terras celtas. Quando encontrar uma lenda que possua elementos xamânicos
(ou que lhe seja interessante), tente memorizá-la.
Isto não é tão difícil quanto se pode imaginar. Não se trata de repetir as mesmas
palavras todas as vezes, mas de conhecer os componentes da estória e o modo como eles se
encaixam. Depois que compreender isto, você poderá contar as estórias a quem desejar
ouvi- las - e certamente todos gostam de uma boa estória!
Com o tempo, você se verá pronto para começar a contar uma outra estória - a sua
própria. Toda a sua vida é uma estória, e há muito a se aprender quando, de tempos em
tempos, revemos nossas vidas. Tente relatar alguns pequenos episódios em voz alta para
você mesmo, como se estivesse repetindo uma anedota num círculo de amigos, à mesa de
jantar. Desta vez, porém, não omita nada, como pode se ver tentado a fazer em outras
circunstâncias, e procure conscientemente pelos padrões ocultos que formam todas as
nossas vidas. Busque as referências importantes a características suas das quais você
não se dá conta. Você se surpreenderá com a natureza reveladora das coisas de que
você 'se lembrará.'
Deixei um dos ensinamentos mais importantes praticamente para o fim: como recontar a sua
própria estória. Os celtas amavam lendas, e possuíam uma classe profissional, os bardos
e seanachies, cuja tarefa era memorizar centenas de estórias. Muitas destas se perderam
para sempre, apesar de conhecermos os nomes de algumas. Mais importante do que isso,
porém, é aprender a contar sua lenda em todos os dias de sua vida. Qual é a sua
estória? Que tipo de pessoa ela faz de você? Você é um guerreiro, um curandeiro, um
músico, um viajante? Estes são apenas alguns dos papéis que você pode desempenhar -
talvez diversos durante sua vida. Você deve perguntar a si mesmo em que tipo de lenda
você vive, e então poderá começar a contá-la, a princípio somente para você,
talvez. Você pode escrevê-la, e lê-la novamente após algumas semanas. Veja, então, se
consegue identificar os padrões que se ocultam sob a superfície.
O ato de contar estórias é uma forma de ensino usada desde os primórdios dos tempos. As
parábolas de Cristo e dos monges celtas eram estórias que nos ensinavam a viver. Entre
os nativos da América do Norte, os Aborígenes da Austrália e os cantores Sami da
Lapônia, por exemplo, existem repertórios virtualmente infinitos de lendas que narram a
recriação e a perpetuação do sagrado, e a relação das pessoas com este último. As
antigas estórias e canções tradicionais recitadas pelos bardos celtas visavam a,
simultaneamente, entreter e instruir. As estórias e lendas dos celtas nos falam do Outro
Mundo, deste mundo, de nós mesmos. Convém aprender ao menos algumas de cor; não importa
se as palavras não são sempre as mesmas, desde que os elementos da estória estejam
firmemente enraizados em você. Assim, você poderá contá-las a qualquer um que deseje
ouvi-las, e você poderá se surpreender com a quantidade de pessoas interessadas. Tente
contá-las a seus filhos; venho contando estórias mágicas a meu filho desde que ele era
crescido o bastante para compreender minhas palavras. Por vezes, ele as entende melhor do
que eu!
Assim, ouça as antigas estórias, e você verá o quanto aprenderá. Muitos dos antigos
ensinamentos estão contidos nessas lendas, apenas aguardando para serem retirados e
praticados. Depois de um certo tempo, você verá que novas estórias surgirão a você,
talvez contendo elementos das antigas lendas que se revelam de outras formas. Escreva- as,
e tente decorá-las. Se você é capaz de memorizá-las sem precisar escrever, tanto
melhor, pois assim elas serão realmente uma parte de você.
John Matthews

A Deusa no Reino da
Morte"
Neste mundo, a deusa é vista na lua, aquela que brilha na escuridão, aquela que traz a
chuva que move as marés, a senhora dos mistérios. E, enquanto a lua cresce e mingua, e
anda três noites no sei ciclo da escuridão, diz-se que a deusa, certa vez passou três
noite no reino da morte.
Pois, no amor, ela sempre busca seu outro self e, uma vez no inverno do ano em que ele
havia desaparecido da terra verde, ela o seguiu e chegou, finalmente, aos portões além
dos quais os vivos não entram. O guardião do portão desafiou-a e desnudou-se de suas
roupas e jóias, pois nada pode ser levado para aquela terra. Por amor ela estava aqui
confinada como todos os que ali penetram, e foi conduzida à morte.
Ele a amava e ajoelhou- se a seus pés, deu-lhe o beijo quíntuplo e disse: -Não retorne
ao mundo dos vivos, mas permaneça aqui comigo e tenha paz, descanso e conforto. Mas ela
respondeu: -Por que você faz com que todas as coisas que amo e prezo murchem e morram?
-Senhora- disse ele- é destino de tudo que aquilo que vive morrer. Tudo passa, tudo se
esvai. Eu trago conforto e consolo para aqueles que cruzam os portões, para que possam
juvenescer, mas você é o desejo do meu coração, não volte, fique aqui comigo.
E ela ficou com ele durante três dias e três noites, e ao final da terceira noite, ela
colocou sua coroa, que se tornou o diadema que ela colocou em seu pescoço, dizendo: -Eis
o circulo do renascimento. Através de você todos saem da vida, mas através de mim todos
podem renascer novamente. Tudo passa, tudo muda. Mesmo a morte não é eterna. Meu é o
mistério do ventre, que é o caldeirão do renascimento.
Penetre em mim e me conheça e estará liberto de todo o medo. Pois se a vida é somente
uma passagem para a morte, a morte é somente uma passagem de volta para a vida e em mim,
o círculo sempre gira. Amorável ele penetrou-a e assim renasceu para a vida. No entanto
ele, é conhecido como senhor das sombras, o confortador e consolador, aquele que abre os
portões, rei da terra da juventude, o que dá paz e descanso.
Mas ela é a mãe de toda a vida; dela todas as coisas nascem e para ela devem retornar
novamente. Nela estão todos os mistérios da morte e do renascimento; nela encontra-se a
realização de todo o amor. Extraído do livro
Bibliografia Wiccan / A Dança Cósmica Das Feiticeiras

"A Lenda da Descida da Deusa ao Mundo Subterrâneo"

Mito de Prometeu e Epimeteu
Era uma vez um tempo em que os deuses já existiam, mas os mortais, ainda não. Quando
chega o tempo marcado pelo destino para o seu nascimento, os deuses então modelam as
criaturas no interior da Terra, com uma mistura de terra, fogo e de todas as substâncias
que se podem combinar com o fogo e com a terra.
No momento de trazer as criaturas à luz, os deuses ordenaram a Prometeu e seu irmão
gêmeo Epimeteu, que distribuíssem adequadamente entre as criaturas, todas as qualidades
as quais devessem ser providas.
Epimeteu pediu então a Prometeu, que lhe deixasse o cuidado de fazer ele mesmo a
distribuição. Quando terminado, Prometeu faria a inspeção da obra realizada. Dada a
permissão, Epimeteu começou a trabalhar. Nessa distribuição, Epimeteu dá a alguns a
velocidade, a força a outros, de forma que o fraco seria ágil e rápido para compensar
sua debilidade, e o lento assim, seria forte para que pudesse se defender. A alguns ele
concede armas, e para outros cuja natureza é desarmada, inventa alguma outra qualidade
para que pudesse garantir a sua salvação. Faz enfim a distribuição, de forma que as
raças possam não desaparecer.
Depois de as ter premunido adequadamente contra as destruições recíprocas, ocupou-se
então Epimeteu de defendê-las contra as intempéries que vem de Zeus, revestindo as
criaturas com pelos espessos ou peles grossas, abrigos contra o frio, e também abrigos
contra o calor. Calçou uns com cascos, outros com couros maciços, e assim por diante.
Providenciou alimentação distinta para todos: ervas para uns, raízes para outros, etc.
A alguns atribuiu como alimento a carne de outros. A esses deu uma descendência pouco
numerosa, e suas vítimas receberam como compensação, uma grande fecundidade, como
salvação da sua espécie.
Epimeteu, que tinha uma sabedoria imperfeita, já tinha esgotado, sem perceber, todas as
qualidades com os animais, esquecendo-se de reservar alguma coisa para prover o homem.
Então, chega Prometeu para examinar o trabalho, e viu as outras raças equipadas e o
homem nu, sem calçados, sem coberturas e sem armas. E tinha chegado o dia marcado pelo
Destino, em que era preciso que o homem saísse da terra e viesse para a luz.
Diante dessa dificuldade, Prometeu não sabia que meio de salvação poderia encontrar
para o homem. Decidiu então roubar de Héfesto a habilidade com o fogo, e de Atena a
inteligência, para então dá-los aos homens como forma de defender a sua vida.
Foi assim que o homem recebeu a posse das artes úteis à vida, mas não foi agraciado com
a política, pois essa pertencia a Zeus, o deus supremo.
Prometeu não ousou voltar ao Olimpo para tentar colher a política junto ao poderoso rei
dos deuses. Mesmo assim Prometeu foi descoberto e acusado de roubo, sendo condenado a
ficar eternamente amarrado em cima de um penhasco, onde um abutre comeria o seu fígado
durante o dia, e durante a noite ele se regeneraria, repetindo-se dia após dia, num
castigo eterno.
O homem, portanto, era a única parte da criação que possuía uma parte divina, e por
isso foi o único dos animais a honrar os deuses, construindo altares e templos para eles,
e a fazer oferendas e sacrifícios em sua honra.
Devido à inteligência que fora roubada de Atena, o homem desenvolveu uma linguagem com
palavras articuladas, aprendeu a construir habitações, as roupas, os calçados, a
cultivar a terra, etc.
Mas não havia nenhuma cidade, vivendo os homens dispersos, de forma que eram presas
fáceis para os animais mais fortes. Sua inteligência era ineficaz na guerra, pois não
possuíam a arte da política, da qual a guerra e parte.
Procuraram então se reunir em cidades, para que pudessem se proteger, mas uma vez juntos,
os homens lesavam-se mutuamente, pois não possuíam a arte da política, fazendo com que
se dispersassem ou morressem.
Zeus, temeroso por nossa espécie ameaçada de extinção, e com isso perderia-se os
altares e as oferendas, ordenou a Hermes, o mensageiro divino, a distribuir a todos os
homens indistintamente, a justiça e o pudor.
A justiça para que se faça as leis, e o pudor para que as leis sejam respeitadas. Zeus
ordenou ainda que todo aquele que não fosse capaz de compartilhar do pudor e da justiça,
deveria ser eliminado da sociedade, pois seria um flagelo a ela. Nascia a política.
Epimeteu em grego significa "o que pensa depois", e Prometeu "o que
pensa antes"
